sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A gente cresce, percebe que tudo tem olho e se encolhe e engole.

se... diversos "se"


E eu vou te encher mais uma vez... Eu sou assim, não desisto muito fácil do que quero, ainda mais quando sinto coisas que não entendo, tenho algo dentro de mim que me diz: _ tente novamente. A vida me mostra quando agimos assim ficamos desprotegidos, corremos um grande risco de nos machucarmos, de assustarmos as pessoas, mas são riscos e se eu não colocar os pés no chão e reconhecer que estou em suas mãos e assumir todos os riscos, de que vale a vida?
Eu sei que se eu fosse menos impulsiva, deixando as coisas rolarem, que se eu ficasse na minha e fosse "comendo pelas beiradas", aprendendo quem é você, sabendo das suas histórias, se eu desse tempo ao tempo, se eu fosse mais devagar, iria ainda ter você por perto, mas eu não sou assim, não gosto muitos desses se... Eu acho que esse "se" atrapalha.
Mas vou deixar uns "se" para você:
SE você não tiver medo de me conhecer melhor...
Se você quiser ficar por perto...
Se você quiser experimentar como será...
Se você quiser baixar as armas...
Se você me deixar sentir o osso dos seus quadris...
Acho que poderíamos ter momentos de risos largos, de tardes leves, de noites com luas, de brincadeiras bobas e é só isto que tenho para oferecer...." se" você quiser...
ou apenas conseguir sentir porque : " tinha que ter sido ruim"
Enfim...

Olhe devagar e tenha presa



Me lembro de um dia assim do nada, uma aluna me contando que o irmão fez um comentário e eu não ouvi, e parou por ai, fiquei sem saber o comentário e quem era o irmão... algumas pessoas ficam na minha frente e eu não vejo, não sei exatamente que mecanismo é este que a minha mente tem, talvez eu só veja as pessoas que conversem comigo ou que de alguma maneira me chamam a atenção, o que me chama a atenção são coisas velhas, antigas e também o extremamente novo, o que nunca ninguém viu, o que ninguém nunca tocou...ah! isto não existe, desde que o mundo é mundo... tudo é velho, tudo é antigo, mas eu ainda tenho a ilusão de que algum dia em algum lugar eu vou ver algo muito novo e me espantar com isto.
Eu gosto muito de ficar olhando as pessoas e ficar formulando perguntas que nunca terão resposta. Uma vez eu tive um namorado que morava em São Paulo, andávamos de metro e eu adoro ficar olhando as pessoas nestes lugares transitórios, gosto de ver um homem bem vestido e ficar imaginando quem arrumou as suas roupas, quantas vezes ele se olhou no espelho antes de sair de casa, se tomou café, as vezes uma evangélica toda coberta com saia de tergal (eu sei o nome do tecido), cobrindo os joelhos, com o cabelo em um coque perfeito, serenidade no rosto, imagem de Cristo e me pergunto se ela mantem esta serenidade quando uma criança faz birra, fico me perguntando se ela é capaz de vestir uma lingerie vermelha e se deliciar com os prazeres do sexo... e também via muitas outras coisas e muitos outros pensamentos que não tinha coragem de contar bobagens minhas que não valiam a pena comentar, perguntas sem respostas, e o meu tal namorado não compreendia porque eu ficava olhando as pessoas, isto eram coisas minhas ele me perguntava e eu sempre respondia: bobagens. Mas responder bobagens não foi o suficiente e o namoro acabou, eu fiquei três messes chorando desesperadamente, fui a uma igreja briguei com Jesus, procurei ele por 3 vezes, acordei várias vezes a noite desesperada tentando entender o que tinha acontecido, pois enquanto eu subia a rua do prédio eu via ele pela janela chorando, emagreci 11 quilos( imagina o que é isto para uma pessoa de 1,55), mas até que um dia a minha casa foi atingida por um tornado e eu fui chamada de novo a vida, e um amigo quando soube veio imediatamente, me falou das coisas que aconteceu com ele um acidente, um ano em coma, um ano para aprender a andar novamente, de volta a vida? Nada, nisto ele perdeu o amor da esposa que não suportava cuidar de um doente e nem entender que ele ficou com sequelas mentais, não tem hoje uma memória do presente, repete várias vezes a mesma coisa, perdeu o contato com os dois filhos e isto doeu em mim, pois este cara é uma pessoa boa, no dia do acidente era aniversário da esposa, ele estava levando rosas brancas para ela, simbolizando o amor puro que ele sentia, mas enfim este amor não sobreviveu ao acidente e hoje ele vive no passado que ninguém entende, eu faço parte deste passado e as vezes ele olha em um caderninho de anotações o meu nome e me liga, quando isto acontece eu vou até ele e passamos horas rindo e falando bobagens mas em poucas horas tudo isto é apagado, mas nestes momentos eu sei que ele fica feliz, e se eu ligar pra ele assim do nada e marcar um encontro ele diz que não sabe quem sou eu... eu sempre tenho que esperar que ele se lembre de mim e me procure, mas a vida dele agora é assim e porque eu gosto dele tenho que aceitar. Na minha vida a minha grande dificuldade é a aceitação, eu passo horas meditando e tentando aceitar coisas que não me agradam e que não posso mudar, as vezes consigo, outras não.
Tenho visões de futuro que não me agradão, de passado que gostaria de não ter e me envolvo com isto, não gosto das coisas pela metade se tenho que ser infeliz em alguns momentos eu sou assim completamente infeliz, choro até as lágrimas secarem ( isto realmente acontece, é biológico - ficamos sem comer, sem ingerir líquidos e o corpo para preservar os órgãos vitais para de funcionar em algumas coisas), e se tenho que ser feliz, se sinto uma possibilidade eu tento até que todas as possibilidades se esgotem, algumas pessoas não entendem isto, dizem que é loucura, mas eu tento até alguém me provar o que é verdade... da verdade eu pouca coisa sei... mas acredito nela, acredito que alguém em algum lugar esteja realmente interessado em mostrá-la , que tudo o que vivemos tem um sentido, um propósito .
Eu sou uma pessoa que não acredita muito no tempo, ele nos ajuda a apagar alguns sofrimentos, mas também nos atrapalha quando acreditamos nele... quando acreditamos que se ele passar alguma coisa vai mudar, as coisas mudam, mas mudam quando aceitamos, quando nos distanciamos e colocamos um novo olhar e tem alguma coisa que cutuca e que diz: olhe devagar, olhe devagar e tenha presa, tenha presa...
E é isto que eu quero, que você me olhe devagar e que tenha presa....

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Falta de tempo




Nunca temos tempo. Para ser e até para não ser. Para arrumar ou desarrumar. Decidi organizar a biblioteca e baixei todos os livros da estante. Um assalto, os livros no solo com pavor de minha reação. Foi um surto de um dia, mas que demandaria um mês inteiro para terminar. Quem disse que levei adiante? Os livros continuam deitados. O assalto virou sequestro. Deixei a ânsia de corrigir minha vida e ordenar alfabeticamente os autores para outro momento.

Nunca temos tempo. Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distrações. O tempo de férias não conta, é um templo planejado, que mais se assemelha a um trabalho free lancer do que a uma espontânea inquietação. Passagens, hotel ou casa alugada, pagar as contas com antecedência, procurar alguém para controlar a casa, manter a água das plantas, isso que não possuo cachorro...

Não temos tempo a perder, muito menos a ganhar. Tempo é espaço, estar perto para conseguir voltar. Não tenho tempo para responder mensagens, não tenho tempo para ir à praça. Diversão termina rápido. Minha boca é um relógio de corda.

Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo. Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso. Ainda mais para quem não aprendeu a dizer não. Eu desmarco, não nego nada. O constrangimento de cancelar algo me transtorna. Fico dias sem dormir aventando perdões absurdos. Qualquer contemporâneo tem vidas paralelas. E mortes paralelas também.

Existe um único antídoto para a falta de tempo. Um único. Estar apaixonado. Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no próprio tempo. Tudo é adiado. A dispersão nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas. As córneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar, ensaiar e aguardar perfumado o encontro. Passar as roupas é uma necessidade. Os vincos são desafiados com inusitada paciência. Depilamos a agenda. Compromissos sérios pulam de casas e horários. Antes imutáveis, as reuniões trocam de vôo de modo nervoso. O trabalho passa violentamente rápido. Não há o medo de ser demitido, o medo de se proteger, o medo de repetir as relações passadas, a segurança de prever. Cada um assume uma condição noturna, intermitente, o olhar abobado e a vontade excessiva. A imaginação pára a escrita em um só nome.

Aconselho a quem não tem tempo: apaixone-se. Perca a cabeça na guilhotina. Entregue seus pés para a espuma. Permita a cintura subir como um chafariz. Não pense que vai dar errado. O que pode dar errado já aconteceu antes. Dentro do tempo.
Fabrício Carpinejar

Franqueza para machucar





Os casais terminam se odiando porque eles se reduzem. Eles se apequenam e não reparam na dispersão destrutiva. Se no começo ambos enxergam apenas o lado bom e se apaixonam; com a convivência, tomam gosto pela agressão gratuita. Não que o lado bom tenha desaparecido, é que não tem mais graça.
Com o pretexto da franqueza, preparam o veneno. Há uma esperança enganosa de que o pedido de desculpas apaga a grosseira, que a compreensão abole a ofensa, que a cumplicidade é maior do que as adversidades. 
Não fazem por mal, mas fazem. Espancam o primeiro que aparece pela frente. O primeiro que aparece é sempre um ou o outro. Afinal, são os únicos que estão em casa. 
Como se conhecem perfeitamente, os dois passam a listar os defeitos numa discussão ou numa tola conversa. Como se os defeitos dependessem de reprise. 
Ele dá uma opinião sobre o casamento e ela o desqualifica, avisando que ele não tem base moral na família para dizer isso. E mexe os galhos podres sobre sua cabeça. 
Ela chega com mechas no cabelo e ele lembra que é a terceira vez em duas semanas que ela volta do salão com um novo corte. 
Ele põe uma camisa listrada todo feliz e ela pergunta se ele sairá desse modo ridículo. 
Ela está nervosa com as contas do cartão e ele vem com um sermão de que gasta o desnecessário, sendo que parte do superficial são o sorvete e as frescuras que ele pede no mercado. 
Ambos estão jantando com amigos e a mulher confessa que é impraticável dormir com os roncos dele. O marido, sexy e solto até o momento, quase morre de apnéia com o drinque. 
Ela narra sua adolescência e os lugares que freqüentou e o cara consegue ficar com ciúme dos fantasmas e perguntar pormenores. 
Ele recebe um elogio de uma mulher e ela, de pronto, chama a menina, que nem conhece, de piranha e interesseira. 
Ela estaciona o carro numa brecha impossível. Ao invés de elogiar, ele declara que é o mínimo que se pode fazer depois de 45 horas de auto-escola. 
Ele se sente um pouco mais musculoso, ela logo encontra com as mãos: 
- Ainda tem uma barriguinha. 
Ela compra lingerie e se assanha de perfume, ele confessa que teve um dia cheio. Um dia cheio que não apaga a televisão. 
Ele tenta dançar, depois de inúmeras reclamações de que não se mexe em festas. 
- O que você achou?, pergunta, eufórico, depois da balada. 
- Melhor ficar parado, ela diz, categórica. 
A mulher percebeu que ele se soltou exclusivamente nas músicas gays. Os braços histéricos e as pernas duras. 
Ela é convidada para uma festa dos colegas e ele transforma sua ida em favor e sacrifício. Claro que ela não se diverte, termina entretendo o marido que não deseja se enturmar. 
Os casais não necessitam se bajular, mentir, simular quando não se tem vontade. Mas é masoquismo não deixar que o desejo se torne memória, reprovar de modo permanente quem amamos, rebaixar quem depende de uma delicadeza. Ninguém ajudará sua companhia falando a verdade, mas sendo a verdade. 
Intimidade é gentileza. 
Fabrício Carpinejar

Quando não se espera



Você está cansada, peças mistas, roupa de terça-feira, a língua não pousa sábia, teve irritações no trabalho, não arrumou as unhas, andou pra cima e pra baixo com as botas, é o dia perfeito para não encontrar nenhum amor. Para descansar e ficar em casa, comendo chocolate e assistindo capítulos perdidos do seriado preferido.

Mas ele surge sem ser convidado. Ele aparece como para contrariar. É um amigo que não prometia atração, um colega que não demonstrava interesse, um conhecido que abre a guarda.

Ontem estava disposta, ontem estava perfumada e irretocável, ontem estava com chapinha e decote, ontem desejava que acontecesse. Hoje se sente um bagulho, acima do peso, acima da idade (se é jovem ou velha dependendo do humor), e ele se oferece, cheio de intenções e malícia, soprando palavras misteriosas, que confundem e a tiram para dançar.

Como explicar que não está depilada? Muitas amigas desistem do compromisso para manter a reputação das virilhas. O homem vai deduzir que ela não está a fim enquanto a razão é outra.

A verdade é essa: ele a convida para sair logo hoje. De repente, não haverá um segundo convite. Aceita contrariada, querendo retornar cedo. Não consegue se desvencilhar e enfrenta a decisão de ir até o fim ou deixar para depois. Arruma dezenas de desculpas infundadas, despropositadas, esfarrapadas como a lingerie que tenta esconder, que precisa terminar um projeto ou que tem reunião de manhãzinha.

Toda mulher teme perder o homem porque não está produzida e preparada. Mas o que o homem mais gosta é de uma mulher desprevenida. Uma mulher que supera os condicionamentos da beleza para se inventar. Uma mulher que surpreenda sua indisposição com a vontade da voz. Uma mulher com cara de quem se acorda, não com cara de quem vai dormir. Uma mulher que não aguarda o melhor momento, mas deixa que aquele momento, tão ínfimo e opaco, despretensioso e discreto, encontrar sua grandeza. É quando ela se dá conta de que terá que tomar banho mesmo nos lábios dele. É quando ela se dá conta de que terá que esticar as pernas para apertá-lo dentro.

Despreparados para o amor, o amor é sincero. Ao invés da sedução partir de frases escolhidas, escolhe qualquer cisco para o ninho e o ensina a voar. Uma gafe, um tropeço, um arrependimento não prejudicam a conversa, o que existe é cumplicidade, que pede água para manter a naturalidade da boca. Vocês não estão bêbados, vocês não estão irresponsáveis, vocês não enlouqueceram, nenhum motivo para esquecer, e a noite se molda aos seios como uma segunda pele.

A noite perfeita não é a noite prometida, com a expectativa de brilhar, a noite perfeita é a que não se espera.
Fabrício Carpinejar

Um amor sem volta




Meu primeiro beijo na boca me deu uma lição.
Uma lição que guardo até amanhã.
Apaixonado pela colega Alice. Ambos com treze anos. Cursávamos o último ano do Ensino Fundamental.
Ela não gostava de mim, gostava como amigo. Mas meu amor por ela valia por dois. Amava por mim e por ela. Amar em dobro é dobrar também a própria solidão.
Durante dois anos, guardei o sentimento sufocado. Escrevia cartas e poemas. Redigia bilhetes curiosos e ternos durante a aula. Anotava corações em seus cadernos. Insinuava uma aproximação atrapalhada, apressada. Agüentei no osso seus namoros com caras mais velhos, as confidências e detalhes macabros de suas conquistas.
Uma noite chuvosa, correndo de mãos dadas para chegar em casa, tentei o beijo, emparedei sua cintura debaixo da marquise e ela escapou o rosto. Meu primeiro beijo foi um não-beijo. A chuva me impediu de chorar.
A partir desse encontro, nossa amizade não poderia seguir ingênua. Não poderia nem seguir. Ela me olhava desconfiada. Sempre que uma mulher olha desconfiada nos promove a homem. Não posso esconder o orgulho de ser observado como homem após permanente insistência. Mesmo que seja como homem recusado.
O que não esperava é que ela abrisse a guarda, orientada pelo irmão, que aconselhou:
- Dá uma chance para o menino.
Mandou um bilhete avisando que não viveria sem mim. Convidou-me para ir ao seu apartamento. Seus pais estavam no cinema.
Eu a beijei no sofá. Era mais alta do que eu. Errei um pouco a altura do tronco para encaixar. Um beijo tímido, sem convicção. Um beijo com a língua hesitante. Com os lábios mudos, murchos.
Logo nos despedimos. E fingíamos que nada acontecera. Prometemos ligar no dia seguinte, não mais nos falamos. Nem para acarrear o amor. Mudei meu lugar na classe e sentei ao fundo. Seus cabelos loiros me acenaram longamente.
Eu a amava, mas não fora suficiente. Ela deve ter pensado que ficar comigo era o melhor. Mas o melhor não é o verdadeiro. Não se persuade o corpo com argumentos. Ela desejava me amar por admiração ao amor que eu sentia duplicado. O amor que a tornava Alice do Fabrício. Ela tinha ciúme do próprio amor que nutria por ela e queria tomar de volta.
Meu primeiro beijo na boca me deu uma lição.
Uma lição que guardo até amanhã.
Que o amor não se convence.

Fabrício Carpinejar